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Guaíra perdeu as Sete Quedas para o lago de Itaipu. Em 2024, os royalties somaram R$ 62,3 milhões

O Salto de Sete Quedas, no rio Paraná, foi coberto pelo lago de Itaipu em 1982. Em 2024, Guaíra (PR), com 32 mil habitantes, registrou R$ 62,3 milhões em royalties da usina. O que isso compensa?

7 min de leitura23 fontes

R$ 62,3 mide royalties de Itaipu na receita da prefeitura de Guaíra em 2024

Fotografia antiga em tons de sépia do rio Paraná espremido entre paredões de rocha escura, com corredeiras brancas em primeiro plano e uma queda de água ao fundo, sob céu claro
Salto de Sete Quedas, no rio Paraná, em Guaíra (PR), c. 1929-1930 · B. Rondon / Arquivo Nacional, via Wikimedia Commons, domínio público

Guaíra, no oeste do Paraná, tinha 32.097 habitantes no Censo 2022, segundo o IBGE. Foi ali, na fronteira com o Paraguai, que o rio Paraná despencava no Salto de Sete Quedas, coberto em 1982 pelo lago da usina de Itaipu. Em 2024, a prefeitura declarou ao Tesouro Nacional R$ 62,3 milhões em royalties de Itaipu, a maior fonte individual de receita da prefeitura naquele ano. A pergunta deste texto é direta: quanto vale hoje, para Guaíra, ter perdido as Sete Quedas?

O que ficou debaixo d'água

Sete Quedas não era uma queda só. A contagem varia conforme a fonte: 19 saltos reunidos em sete grupos, segundo reportagem do H2FOZ de 2022; 18, segundo texto de Glenn Switkes publicado em 2008 pela ONG International Rivers. A vazão também depende de quem mede. O World Waterfall Database, base de dados de cachoeiras citada pela Wikipédia, dá cerca de 13 mil metros cúbicos por segundo (m³/s). O Guinness World Records registra a cachoeira como a maior já submersa por um reservatório e diz que a vazão já chegou a 50 mil m³/s em ocasiões passadas.

Para ter uma régua: o tratado de 1950 sobre o Niágara obriga que passem pelo menos 2.832 m³/s sobre as cataratas em horário de visitação, segundo o Niagara Parks. Pela estimativa de 13 mil, as Sete Quedas levavam cerca de 4,6 vezes isso (cálculo nosso). É também a mesma ordem de grandeza da afluência média normal de Itaipu, de cerca de 11 mil m³/s segundo técnicos da usina, em reportagem da Reuters de 2021. Ou seja, era praticamente o rio inteiro que passava por ali.

Fotografia antiga em sépia do rio Paraná estreitado entre blocos de rocha escura, com várias corredeiras e pequenas quedas brancas ao longo do canal
O rio Paraná estrangulado no trecho do Salto de Sete Quedas, em fotografia do Arquivo Nacional datada de 1929-1930B. Rondon / Arquivo Nacional, via Wikimedia Commons, domínio público

O fim das quedas está em documentos oficiais. A declaração conjunta de Brasil e Paraguai que abriu os estudos da usina falava em aproveitar o rio "desde e inclusive o Salto de Sete Quedas até a foz do Rio Iguaçu", conta a própria Itaipu. O Parque Nacional de Sete Quedas, criado em 1961, foi extinto pelo Decreto 86.071, de 4 de junho de 1981, que mandou o IBDF aproveitar e vender a madeira da área a ser inundada.

1982: a passarela, as comportas e a usina

Em 17 de janeiro de 1982, uma passarela pênsil sobre um dos saltos cedeu. A cronologia oficial da Itaipu diz que 32 turistas, "ansiosos por se despedir das Sete Quedas", morreram. Os relatos divergem: a Folha de Londrina falou em 30 mortos em 1999, e a International Rivers, em 80, em 2008. Também não há acordo sobre qual salto abrigava a passarela: o 14, segundo O Paraná e o H2FOZ, ou o 19, segundo a Wikipédia em português. O Paraná registra que a perícia da época apontou falta de manutenção e excesso de peso. Não localizamos o laudo, e este texto não atribui responsabilidade a ninguém.

Em 13 de outubro de 1982, segundo a Gazeta do Povo e o H2FOZ, o canal de desvio do rio foi fechado para formar o lago. Por causa das chuvas, o reservatório levou 14 dias para encher, diz a Itaipu. Segundo o H2FOZ, em 27 de outubro o nível chegou à cota de 220 metros e cobriu o último salto. O lago ocupa 135 mil hectares, segundo a empresa. O poeta Carlos Drummond de Andrade se despediu em versos, no poema "Adeus a Sete Quedas": "sete quedas por mim passaram, e todas sete se esvaíram".

A usina que cobriu as quedas produziu 67.089 GWh em 2024 e atendeu 6,7% da demanda de energia do Brasil e 77,9% da do Paraguai, segundo o Relatório Anual 2024 da empresa. Em 28 de fevereiro de 2023, pagou a última parcela da dívida da construção (US$ 115 milhões). Ao todo, segundo a Itaipu, consumidores brasileiros e paraguaios pagaram US$ 63,3 bilhões pela dívida: US$ 35,4 bilhões de amortização e US$ 27,9 bilhões de encargos.

Vista da barragem de Itaipu com o paredão de concreto ao fundo, as saídas das turbinas e rochas escuras em primeiro plano sob céu com nuvens
A barragem de Itaipu, em Foz do Iguaçu (PR)Leandro Neumann Ciuffo / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Como o "cheque" chega a Guaíra

Itaipu paga royalties aos governos do Brasil e do Paraguai pelo uso do rio, previstos no Anexo C, item III, do Tratado de 26 de abril de 1973. São pagos em dólares, segundo estudo de Storto e Cocato publicado em 2017. A Lei 8.001/1990 manda a usina distribuir, todo mês, 85% dos royalties devidos ao Brasil a órgãos da União, ao estado e aos municípios diretamente afetados, e 15% aos afetados por reservatórios a montante.

Desde a Lei 13.823, de 9 de maio de 2019, o texto assegura 8% a Guaíra. Antes, a fatia era de 4,8%, segundo a Gazeta do Povo. A Rádio Senado explicou a lógica em 2018: o rateio vigente seguia a área alagada e não considerava o potencial econômico de cada área, e Guaíra havia perdido seu principal atrativo turístico e uma importante fonte de receita. Segundo a mesma reportagem, o projeto dava à cidade 8% dos royalties pagos aos municípios diretamente afetados. A cronologia da Itaipu resume: o município "passa a receber royalties da Itaipu pelo alagamento".

Ponte comprida sobre o rio Paraná, com postes de iluminação, carros na pista e águas calmas dos dois lados sob céu azul com nuvens
A ponte Ayrton Senna, sobre o rio Paraná, entre Guaíra (PR) e Mundo Novo (MS)Rafael Drake / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.5 BR

Quanto isso vale hoje

Na Declaração de Contas Anuais que a prefeitura enviou ao Tesouro Nacional, a linha "Utilização de Recursos Hídricos - Itaipu" somou R$ 62,3 milhões em 2024. Em 2018, antes da lei, a conta de recursos hídricos somava R$ 19,3 milhões. Em 2015, segundo a Rádio Senado, Guaíra recebeu cerca de R$ 15 milhões. Os valores são da época, sem correção pela inflação.

Royalties de Itaipu na receita da prefeitura de Guaíra (R$ milhões, valores da época)

  1. 2018R$ 19,3 mi
  2. 2019R$ 27,3 mi
  3. 2020R$ 44,5 mi
  4. 2021R$ 48,1 mi
  5. 2022R$ 46,4 mi
  6. 2023R$ 55,3 mi
  7. 2024R$ 62,3 mi

Fonte: Tesouro Nacional/SICONFI, DCA 2018-2024 (2018 = conta Exploração de Recursos Hídricos)

O salto de 2019 para 2020 coincide com a lei de 2019 passando a valer o ano inteiro e, possivelmente, com a variação do dólar, já que os royalties são pagos na moeda americana. Não separamos os efeitos. Em 2018 a DCA não detalhava a linha de Itaipu, e por isso usamos o total de recursos hídricos, que em 2019 era 99,95% da linha de Itaipu.

Pela mesma declaração, a receita bruta realizada da prefeitura em 2024 foi de R$ 277,0 milhões. Os royalties equivalem a 22,5% disso e a cerca de R$ 1.942 por habitante (cálculo nosso, com a população do Censo 2022). São a maior linha de receita do município, à frente da cota-parte do Fundo de Participação dos Municípios e de tudo o que a prefeitura arrecada em impostos, taxas e contribuições de melhoria.

Maiores receitas da prefeitura de Guaíra em 2024 (R$ milhões)

  1. Royalties de ItaipuR$ 62,3 mi
  2. Cota-parte do FPMR$ 51,3 mi
  3. Impostos, taxas e contribuições de melhoriaR$ 34,9 mi
  4. Cota-parte do ICMSR$ 25,8 mi

Fonte: Tesouro Nacional/SICONFI, DCA 2024, Anexo I-C

Para dimensionar a economia local, o PIB de Guaíra foi de R$ 1,44 bilhão em 2023, segundo o IBGE. O PIB mede a produção feita no território, não a receita da prefeitura, e os dois números não se comparam diretamente.

Em 2024, a prefeitura de Guaíra registrou R$ 62,3 milhões em royalties de Itaipu: 22,5% da sua receita, ou cerca de R$ 1.942 por habitante.

O que o número não mede

O royalty é uma compensação prevista no Tratado e na lei, e a parcela de 8% foi justificada no Senado pela perda das quedas. Mas ele não é o preço da cachoeira. Uma dissertação da Unioeste de 2008 aponta dois impactos econômicos do fim das quedas, o fim da atração turística e a perda de áreas agricultáveis. Pelos indicadores, ela conclui que Guaíra encontrou uma nova matriz econômica, com crescimento do emprego formal, do PIB e do PIB per capita; a ficha do trabalho não traz números. Não encontramos estudo que calcule em reais quanto as Sete Quedas renderiam hoje, e por isso o valor da perda em si segue desconhecido. O valor dos royalties também muda com o câmbio, já que é pago em dólares, e depende das regras que Brasil e Paraguai fixarem para a usina.

A resposta

Quanto vale, para Guaíra, ter perdido as Sete Quedas? Em dinheiro que chega ao caixa da prefeitura, R$ 62,3 milhões em 2024: 22,5% da receita declarada, mais do que o FPM e mais do que a cidade arrecada em impostos e taxas. O que esse valor não responde é se compensa o que se perdeu, porque nenhuma fonte que consultamos mediu a cachoeira em reais.

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Fontes

  1. IBGE/SIDRA, Censo 2022, tabela 4709, população residente de Guaíra (PR)
  2. IBGE/SIDRA, PIB dos Municípios, tabela 5938, 2023
  3. Tesouro Nacional/SICONFI, DCA 2018-2024, Anexo I-C, Prefeitura de Guaíra (ente 4108809)
  4. Lei 13.823, de 9/5/2019, que altera a Lei 8.001/1990
  5. Lei 8.001, de 13/3/1990, art. 1º, § 3º (texto consolidado)
  6. Decreto 86.071, de 4/6/1981, extingue o Parque Nacional de Sete Quedas (Câmara dos Deputados)
  7. Itaipu Binacional, Nossa história
  8. Rádio Senado, CAE aprova royalties maiores para Guaíra (PLC 94/2015), 13/7/2018
  9. Itaipu Binacional, Relatório Anual 2024, noticiado pela Cenário Energia, 8/7/2025
  10. Poder360, Itaipu quita a dívida de construção, 28/2/2023
  11. Guinness World Records, maior cachoeira submersa por um reservatório
  12. Niagara Parks, fatos e números sobre as cataratas
  13. International Rivers (Glenn Switkes), Farewell, Seven Falls, 14/3/2008
  14. Reuters, via IstoÉ, afluência média de Itaipu, 20/10/2021
  15. Gazeta do Povo, Orgulho nacional (Itaipu 30 anos), 3/5/2014
  16. H2FOZ, Há 40 anos, Brasil e Paraguai perdiam as Sete Quedas, 27/10/2022
  17. Folha de Londrina, Guaíra, 1982 - tragédia na ponte, 5/9/1999
  18. O Paraná, Tragédia nas Sete Quedas completa 36 anos hoje, 17/1/2018
  19. Gazeta do Povo, lei aumenta os royalties de Itaipu a Guaíra, 10/5/2019
  20. Storto e Cocato, Geographia Opportuno Tempore (UEL), v. 3, n. 1, 2017
  21. Brasil de Fato, Distraídos cantaremos, 2/9/2017
  22. J. F. M. da Silva, Antes e depois das Sete Quedas, dissertação, Unioeste, 2008
  23. Wikipédia, Salto de Sete Quedas e Guaíra Falls (só como pista para o World Waterfall Database e a contagem de saltos)

Imagens

  • Salto de Sete Quedas, no rio Paraná, em Guaíra (PR), c. 1929-1930 · B. Rondon / Arquivo Nacional, via Wikimedia Commons, domínio público
  • B. Rondon / Arquivo Nacional, via Wikimedia Commons, domínio público
  • Leandro Neumann Ciuffo / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
  • Rafael Drake / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.5 BR
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