Serra Pelada rendeu 42,8 t de ouro oficial; hoje o royalty mineral de Curionópolis vem do ferro
Serra Pelada produziu 42,8 t de ouro oficial entre 1980 e 1990. Em Curionópolis (19.950 habitantes), quase toda a CFEM de 2024 veio do ferro; o ouro respondeu por R$ 6,3 mil.
42,8 tde ouro oficial extraído de Serra Pelada, 1980-1990 (DNPM, via Mathis, 1995)

Curionópolis, no sudeste do Pará, tinha 19.950 habitantes no Censo 2022 do IBGE. É o município da vila de Serra Pelada, onde, entre 1980 e 1990, saíram 42,8 toneladas de ouro pelos registros oficiais (DNPM, reunidos por Mathis, 1995). Em 2024, o ouro respondeu por R$ 6,3 mil dos R$ 74,2 milhões de CFEM, o royalty da mineração, pagos em Curionópolis, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM). A pergunta deste texto: o que sobrou de Serra Pelada para quem mora em Curionópolis, quatro décadas depois?
A corrida: quantos eram e o que o Estado fez
O ouro apareceu por coincidência, no fim de 1979 ou no início de 1980, na fazenda Três Barras, entre Marabá e a Serra dos Carajás, segundo o pesquisador Armin Mathis (UFPA, 1995), que lembra que há versões diferentes da descoberta. Em poucos dias chegaram mais de mil pessoas; em março de 1980, eram mais de 5 mil. A área ficava dentro de uma concessão de lavra da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), obtida em 1974 por decreto, quando o interesse da empresa era o ferro.
Quantos garimpeiros? O vídeo do Giro falou em cem mil, e esse número é o teto de uma estimativa, não uma contagem. O estudo de Cleary (1992), citado por Silva (2021), fala em 80 mil a 100 mil em 1983; Mathis, em 80 mil pessoas no garimpo naquele ano. Não encontramos contagem oficial.
Em 20/05/1980, o governo federal, por meio de órgãos sob comando do Serviço Nacional de Informações (SNI), interveio no garimpo, segundo Mathis não para expulsar os garimpeiros, mas para controlá-lo. A equipe era chefiada pelo major Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, funcionário do SNI. Entrada e saída passaram a ser controladas; ficaram proibidos armas, bebida alcoólica e a presença de mulheres; a Caixa Econômica Federal passou a comprar o ouro. Curió deixou a chefia em 1982 e foi deputado federal de 1983 a 1987. O município de Curionópolis, que segundo o Poder360 tem esse nome em homenagem a ele, já aparece em decreto de dezembro de 1988; a lei de 1984 ainda situava a área em Marabá.
A Lei 7.194/1984 criou a reserva garimpeira, de 100 hectares, e entregou a administração dos trabalhos a uma cooperativa de garimpeiros. Autorizou também a União a orçar 7.723.260 ORTN, em quatro parcelas, para pagar à CVRD a retificação da concessão de lavra.
42,8 toneladas e uma cava que virou lago
Os números do DNPM reunidos por Mathis somam 42.837 kg de ouro entre 1980 e 1990. O texto do mesmo estudo cita 48,3 t, mas a tabela, que usamos, soma 42,8 t. O pico foi 1983, com 13,9 t, ou 33% do total (cálculo nosso). Para o autor, a produção real seria de 56,7 t, supondo evasão de 25% em 1980-1983 e de 50% em 1984-1990: é estimativa dele.
Ouro de Serra Pelada, produção oficial por ano (toneladas)
Fonte: DNPM, tabela de Mathis (1995)
Depois do pico, a produção caiu. Das cerca de 3 mil catas em produção em 1984/85, restavam 40 em 1989; e cerca de 100 garimpeiros morreram em acidentes de trabalho até 1988, segundo Mathis. A cava foi se enchendo: chuvas de setembro de 1983 alagaram o fundo e levaram à interdição de quatro áreas, cerca de 60% do garimpo, conforme reportagem da época citada por Silva (2021).

A garimpagem, prevista na lei até 1988, foi sendo prorrogada por decretos. O último que localizamos, de 12/07/1990, fixa o prazo em 11/03/1991 e dá à Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp) até janeiro de 1991 para apresentar ao DNPM um projeto que mostrasse a viabilidade de continuar. Trabalhos acadêmicos citam 1992 como o fechamento oficial.
O vídeo descreve o lago como contaminado por mercúrio. O que está documentado é antigo: o DNPM liberou o uso de mercúrio no garimpo em 1984, e estudos de 1987 e 1990 acharam teores elevados na área. Mathis estima, por conta própria, 32,1 t de mercúrio emitidas entre 1984 e 1990. Não encontramos medição publicada da água do lago de hoje.

De quem é a mina hoje
Em 2007, a Coomigasp e a canadense Colossus Minerals criaram a Serra Pelada Companhia de Desenvolvimento Mineral (SPCDM). A concessão de lavra de ouro, paládio e platina foi dada à SPCDM por portaria do Ministério de Minas e Energia em 2010, segundo a Agência Câmara. A Colossus tem 75% da sociedade e a cooperativa, 25%, segundo a Helius Minerals.
Aí começa a contestação. Em 2014, deputados autores do PDC 1407/13 afirmaram que a fatia da Colossus passou de 51% para 75% sem consulta aos cooperados e pediram anular a portaria; a Comissão de Minas e Energia aprovou o projeto, que na época ainda dependia de outras comissões. A Colossus respondeu em comunicado que a contestação da cooperativa e o projeto de lei não têm mérito, citando o contrato, quatro aditivos e a certificação do ministério. Em 30/04/2014, a empresa paralisou o projeto por não conseguir levantar capital.
Desde 2025, a canadense Helius Minerals tem opção de comprar as subsidiárias brasileiras da Colossus e, em 30/06/2026, informou tê-la exercido. Em 08/06/2026, a própria Helius registrava ônus judiciais sobre os direitos minerários e um passivo de referência de R$ 379,2 milhões (tributário, cível e trabalhista), que ela diz não ser determinação definitiva. Até 16/10/2026 não achamos comunicado de conclusão da compra. Em abril de 2026, a Justiça do Trabalho de Parauapebas homologou acordo de R$ 7,45 milhões com 95 garimpeiros, com a Tectônicas Mineração como responsável solidária e possível operadora; a retomada depende de licenças, segundo o Diário do Pará.
E a Vale? A CVRD detinha a concessão original, de 1974, mas não aparece como parte do projeto atual nos comunicados que consultamos. Há ainda uma pendência antiga: em 1986, a cooperativa acionou a Caixa e o Banco Central pelas sobras de ouro, paládio e prata dos 400 primeiros lotes; segundo nota da Câmara em 2008, só a Caixa foi condenada a devolver os créditos "acaso existentes".
O que chega a Curionópolis hoje
Em 2024, a prefeitura recebeu R$ 45,4 milhões de CFEM, segundo o relatório de distribuição da ANM: cerca de R$ 2.278 por habitante (cálculo nosso, com a população do Censo 2022) e 18% dos R$ 251,4 milhões de receita total que o município declarou ao Tesouro naquele ano (cálculo nosso). Usamos 2024 porque o relatório de 2025 está incompleto, com julho em branco. O recebido difere do pago pelas mineradoras porque a Lei 13.540/2017 reparte a CFEM: 60% para o município produtor, 15% para os afetados, entre outras parcelas.
E de onde vem? Pelo relatório de maiores arrecadadores da ANM, as mineradoras pagaram R$ 74,2 milhões de CFEM em Curionópolis em 2024: R$ 74,15 milhões (99,9%) sobre ferro, R$ 49 mil sobre cobre e R$ 6,3 mil sobre ouro. A Vale S.A. pagou R$ 65,3 milhões (88%). A ANM não diz de qual mina; a Vale informa operar em Curionópolis a mina de ferro de Serra Leste, com capacidade de 6 milhões de toneladas por ano em 2020. Em 2025, o relatório não traz nenhuma linha de ouro.
CFEM paga pelas mineradoras em Curionópolis em 2024, por substância (R$ mil)
Fonte: ANM, Maiores arrecadadores da CFEM

A CFEM é receita da prefeitura, não renda de morador. A renda aparece no Censo: metade dos moradores de Curionópolis vivia com até R$ 750 por mês por pessoa em 2022, segundo o IBGE, acima do Pará (R$ 604,80) e abaixo do Brasil (R$ 1.000). A população era de 19.486 em 2000, 18.288 em 2010 e 19.950 em 2022.
Rendimento domiciliar per capita mediano, Censo 2022 (R$ por mês)
Fonte: IBGE, SIDRA, tabela 10295

A resposta
O que sobrou de Serra Pelada? Como paisagem, uma cava que virou lago e uma vila com o nome do garimpo. Como dinheiro de royalty, quase nada: R$ 6,3 mil de ouro nos R$ 74,2 milhões de CFEM de 2024, que vieram do ferro. Para os garimpeiros, restam contas abertas, como a ação de 1986 sobre as sobras e o acordo trabalhista de 2026 com 95 deles, e uma mina cuja retomada depende de disputa societária, passivos e licenças.
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Fontes
- Mathis, A., "Serra Pelada", Papers do NAEA nº 50, UFPA, dez. 1995 (tabela de produção com dados do DNPM)
- Silva, T. S. A., "Áureo carmesim: conflitos e disputas pela exploração de ouro em Serra Pelada", Secuencia nº 109, 2021
- Lei 7.194, de 11/06/1984, reserva garimpeira de Serra Pelada
- Lei 7.599, de 15/05/1987, altera a Lei 7.194
- Decreto 97.408, de 22/12/1988, prorroga a garimpagem em Serra Pelada
- Decreto 99.385, de 12/07/1990, prorroga a garimpagem até 11/03/1991
- Lei 13.540/2017, alíquotas e repartição da CFEM
- ANM, CFEM distribuída aos municípios do Pará, 2024 e 2025
- ANM, CFEM arrecadada por município do Pará, 2024
- ANM, Maiores arrecadadores da CFEM (filtro Curionópolis, por substância e por empresa, 2024 e 2025)
- IBGE, Censo 2022, população de Curionópolis (SIDRA, tabela 4714)
- IBGE, Censos 2000 e 2010, população residente (SIDRA, tabela 202)
- IBGE, Censo 2022, rendimento domiciliar per capita (SIDRA, tabela 10295)
- Tesouro Nacional/SICONFI, RREO 2024, 6º bimestre, Anexo 01, Curionópolis (ente 1502772)
- Câmara dos Deputados, Comissão de Direitos Humanos e Minorias, nota da audiência pública de 26/11/2008 sobre as sobras de ouro e paládio de Serra Pelada
- Agência Câmara, PDC 1407/13 sobre a concessão de Serra Pelada, 21/03/2014 e 11/04/2014
- Colossus Minerals, comunicado de 30/04/2014
- Helius Minerals, atualização sobre a aquisição de Serra Pelada, 08/06/2026
- Helius Minerals, exercício da opção sobre Serra Pelada, 30/06/2026
- Diário do Pará, acordo trabalhista com garimpeiros de Serra Pelada, 15/04/2026
- Vale, comunicado sobre a mina de Serra Leste, 27/11/2020
- Poder360, "Morre Major Curió, ex-deputado e combatente do Araguaia", 17/08/2022 (cargos de Curió e origem do nome do município)
Imagens
- Cava alagada de Serra Pelada, em Curionópolis (PA), em 2021 · Fernandoscmeira / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
- Hallel / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
- NASA GIBS / HLS, domínio público (contém dados modificados Copernicus Sentinel 2025)
- Túllio F / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0


