Giro.pelo mundo
CECaucaia (CE)

R$ 200 bilhões previstos no Pecém. O que o data center deixa em Caucaia?

O dono do TikTok prevê mais de R$ 200 bilhões num data center em obra em Caucaia (CE). O que a 1ª fase promete em emprego, energia e água para quem mora lá.

5 min de leitura8 fontes

R$ 200 biprevistos no data center, segundo o TikTok

Pôr do sol alaranjado sobre a praia do Pecém, com uma fileira de turbinas eólicas no horizonte e a maré baixa refletindo a luz
Praia do Pecém, em São Gonçalo do Amarante (CE) · Saulo Roberto (Saulorno1) / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O dono do TikTok prevê mais de R$ 200 bilhões num data center no Complexo do Pecém, no Ceará, segundo comunicado da empresa de 04/12/2025. A obra já começou em Caucaia, município de 355.679 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE, vizinho de Fortaleza. É, segundo o TikTok, o primeiro data center da empresa na América Latina. A pergunta que importa para quem mora lá é outra: o que esse prédio deixa na cidade?

O que está sendo construído

Primeiro, a cifra. Os R$ 200 bilhões são uma previsão de longo prazo, não dinheiro já gasto. Segundo o TikTok, o total inclui R$ 108 bilhões em equipamentos até 2035 e outros investimentos ao longo da década seguinte, ou seja, um horizonte de cerca de duas décadas.

Quem constrói é a Omnia. Segundo ela, a primeira fase soma cerca de R$ 50 bilhões: R$ 12 bilhões da própria Omnia em infraestrutura, R$ 34 bilhões da ByteDance e R$ 4 bilhões em energia renovável. As outras fases, diz a Omnia, estão aprovadas, mas ainda não têm investidor.

Navios atracados no píer do Porto do Pecém, com guindastes, vistos de longe sobre uma faixa de coqueiros e casuarinas
Navios no Porto do Pecém vistos do litoral de Caucaia (CE), em 2011Otávio Nogueira / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Segundo a descrição do Ministério Público Federal (MPF), o empreendimento ocupa cerca de 70 hectares, com 2 prédios principais, 120 geradores a diesel, subestação, estação de tratamento e captação de água subterrânea para resfriamento. A operação está prevista para 2027, segundo o TikTok, e para julho de 2027 no primeiro módulo, segundo a Omnia.

Vista aérea do telhado de um data center, com fileiras de equipamentos de resfriamento e geradores ao lado do prédio
Telhado de um data center com equipamentos de resfriamento e geradores no Arizona (EUA), imagem ilustrativaRsparks3 / Wikimedia Commons, CC0

Emprego: 3.800 na obra, 400 na operação

Na fase de obra, a Omnia prevê 3.800 empregos diretos, número que coincide com a estimativa do conselho federal que aprovou o projeto. Na operação da primeira fase, a empresa prevê 400 empregos diretos.

Empregos diretos previstos na 1ª fase do data center

  1. Obra3.800
  2. Operação400

Fonte: Omnia

Energia: até 18% do consumo do Ceará

A primeira fase prevê 300 megawatts de potência instalada, segundo o MPF. Fizemos a conta: se essa potência ficasse ligada no máximo, 24 horas por dia, o ano inteiro, seriam 2.628 GWh por ano. Segundo o Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2026, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Ceará consumiu 14.387,57 GWh de eletricidade em 2025.

Eletricidade por ano: o Ceará inteiro e o teto da 1ª fase do data center (GWh)

  1. Ceará, consumo em 202514.387,57 GWh
  2. Data center, 1ª fase (teto)2.628 GWh

Fonte: EPE, Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2026; teto da 1ª fase: cálculo nosso com os 300 MW citados pelo MPF

Pelo nosso cálculo, o teto da primeira fase equivaleria a 18% de toda a eletricidade consumida no Ceará em 2025, ou ao consumo residencial de cerca de 4,1 milhões de cearenses. É o teto: o consumo real depende da ocupação do prédio. Segundo as empresas, a energia virá de parques eólicos novos, feitos para o projeto, e as resoluções federais que aprovaram o empreendimento exigem energia de usinas renováveis que não operavam antes de 18/07/2025.

Fileira de turbinas eólicas no horizonte, atrás de dunas de areia sob céu com nuvens
Parque eólico em Paracuru (CE), em 2015, imagem ilustrativa: não é um dos parques do projetoGuilherme Almeida da Silva / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

E a água?

Para resfriar os servidores, o projeto prevê captar água do subsolo, que o TikTok diz reaproveitar em circuito fechado. Mas o MPF e a Defensoria Pública da União (DPU) questionam o licenciamento na Justiça. Em 10/09/2026, entraram com ação civil pública contra a Omnia e a Semace, o órgão ambiental do estado. Segundo eles, as comunidades do entorno dependem majoritariamente de poços, numa região historicamente marcada pela escassez de água, e a captação pode rebaixar o nível do lençol freático. O MPF também aponta divergência entre os volumes de água estimados em documentos diferentes do licenciamento, e a ação pede estudo de impacto ambiental e consulta ao povo Anacé, cuja terra está em estudo pela Funai, antes da operação.

A licença prévia e a de instalação já foram concedidas; a de operação, ainda não. Até 05/10/2026, não havia decisão noticiada sobre os pedidos.

Vista aérea de dunas brancas cobertas em parte por vegetação, com uma lagoa e serras ao fundo
Dunas, mata e lagoa em Caucaia (CE), em 2018Jade Queiroz / MTur, domínio público

Para quem o prédio vai trabalhar

O projeto foi aprovado por resoluções do Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação, publicadas no Diário Oficial da União em 06/11/2025. Elas falam em armazenar e processar dados exclusivamente para o mercado externo, no regime de Zona de Processamento de Exportação, por 20 anos.

E os impostos? Aqui é preciso separar três coisas: o investimento previsto pelas empresas, o incentivo federal e a arrecadação do município. A Lei 15.504, de 15/09/2026, criou o REDATA, que suspende tributos federais na compra de equipamentos de data centers. O governo estima que o regime, para todo o setor no país, deixe de cobrar cerca de R$ 5,2 bilhões em 2026. Não encontramos ato público habilitando este projeto no REDATA, nem valor público de renúncia fiscal específico para ele.

R$ 200 bilhões previstos, segundo o TikTok. Na operação da primeira fase, 400 empregos diretos, segundo a Omnia.

O que fica em Caucaia

Pelo que está documentado até agora, a primeira fase deixa em Caucaia 400 empregos diretos na operação, segundo a Omnia, depois de 3.800 na obra. Em troca, usa água do subsolo do município, que o TikTok diz reaproveitar, e energia equivalente a uma fatia relevante do consumo do Ceará, vinda de parques eólicos novos, segundo as empresas. E o serviço aprovado é exportação. Se essa troca vale a pena é a pergunta que a cidade vai ter de responder nos próximos anos.

Se você é do Ceará, compartilhe este texto com alguém de Caucaia e siga o Giro pelo Mundo para acompanhar o que os grandes projetos deixam nas cidades.

Fontes

  1. IBGE, Censo Demográfico 2022, população de Caucaia
  2. EPE, Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2026 (ano-base 2025), tabelas 3.12 e 3.15
  3. Diário Oficial da União, Resoluções CZPE/MDIC nº 103, 107 e 112/2025, 06/11/2025
  4. MPF/PR-CE, ação civil pública do MPF e da DPU sobre o data center, 10/09/2026
  5. MPF/PR-CE, recomendação conjunta com a DPU sobre o licenciamento, 20/05/2026
  6. Planalto, Lei 15.504, de 15/09/2026 (REDATA)
  7. TikTok Newsroom, comunicado de 04/12/2025
  8. Diário do Nordeste, entrevista da Omnia sobre a 1ª fase, 26/02/2026

Imagens

  • Praia do Pecém, em São Gonçalo do Amarante (CE) · Saulo Roberto (Saulorno1) / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
  • Otávio Nogueira / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
  • Rsparks3 / Wikimedia Commons, CC0
  • Guilherme Almeida da Silva / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
  • Jade Queiroz / MTur, domínio público
Compartilhe com quem é do Ceará WhatsApp

Continue o giro

Acompanhe

Um minuto e meio, um número que ninguém te contou.

Cada reportagem daqui vira vídeo no TikTok. Siga para ver a próxima antes de todo mundo.

Seguir @giro.pelomundo43