Os 40 trens do VLT de Cuiabá foram vendidos com lucro? Pela inflação, não
Mato Grosso pagou R$ 497 milhões por 40 trens em 2012 e os vendeu à Bahia por R$ 793,7 milhões. Corrigida pela inflação, a compra valeria R$ 994,3 milhões.
−R$ 200,6 mia venda frente à compra corrigida pelo IPCA (cálculo nosso)

Mato Grosso comprou 40 trens por R$ 497 milhões em 2012, segundo valores confirmados pelos tribunais de contas de Mato Grosso e da Bahia e publicados pela imprensa. Nenhum passageiro andou neles em Cuiabá. Hoje, os mesmos trens levam passageiros em Salvador. Foram vendidos à Bahia por R$ 793,7 milhões, mais do que custaram, no papel. A pergunta é se isso foi lucro de verdade.
Uma obra parada e 40 trens guardados
Os trens eram do VLT entre Cuiabá e Várzea Grande. O contrato original, assinado em 2012, previa obra civil, sistemas e os 40 trens por R$ 1,477 bilhão, segundo o fato relevante que a fabricante comunicou ao regulador espanhol em 30/06/2012. A obra, prometida para a Copa de 2014, parou em dezembro de 2014, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU). Até ali, pouco mais de R$ 1 bilhão tinha sido desembolsado, e o TCU considerou regular o financiamento da obra.

Os trens nunca embarcaram um passageiro em Cuiabá. Entre a paralisação e a venda, ficaram parados por cerca de 9 anos e 7 meses. Entre a compra e a venda, foram 12 anos.
A venda para a Bahia
Em 03/07/2024, Mato Grosso e Bahia assinaram em Brasília, com mediação do TCU, o acordo de venda dos 40 trens. O valor autorizado pelo Tribunal de Contas da Bahia e confirmado pela imprensa no dia da assinatura foi de R$ 793,7 milhões, pago em quatro parcelas anuais, com vencimento em 31/12 de 2024, 2025, 2026 e 2027. Ou seja: mesmo o valor nominal só estará inteiro no caixa de Mato Grosso no fim de 2027.
Na Bahia, os trens ganharam uso. A operação assistida com passageiros em Salvador começou em 29/06/2026, entre as estações Calçada e Lobato. Em 01/09/2026, o trecho foi ampliado até a Parada Marisqueiras, e a linha já tinha levado mais de 80 mil passageiros, segundo a Companhia de Transportes da Bahia.

A conta da inflação
À primeira vista, comprar por R$ 497 milhões e vender por R$ 793,7 milhões parece um bom negócio. Só que o dinheiro de 2012 não vale o mesmo que o de 2024.
Fizemos a conta pela inflação oficial, o IPCA, com a série mensal do IBGE. Há um cuidado aqui: nenhum documento público traz o mês exato da compra dos trens, só o ano. Por isso usamos uma aproximação declarada, junho de 2012, mês em que foi comunicado o contrato do VLT. De julho de 2012 a julho de 2024, mês da venda, foram 145 meses de inflação acumulada de 100,07%. Os preços dobraram.
Os 40 trens do VLT: compra, compra corrigida e venda (R$ milhões)
Fonte: TCE-MT e TCE-BA via imprensa; IBGE/SIDRA, IPCA (correção: cálculo nosso)
Corrigidos pela inflação, os R$ 497 milhões de 2012 viram R$ 994,3 milhões em valores de julho de 2024. A venda ficou R$ 200,6 milhões abaixo disso, pelo nosso cálculo.
No papel, os trens foram vendidos por mais do que custaram. Pela inflação, a venda ficou R$ 200,6 milhões abaixo do valor da compra corrigido.
A conclusão não depende do mês escolhido. Se a compra tivesse sido em dezembro de 2011, a diferença seria de R$ 201,4 milhões; se fosse em dezembro de 2012, de R$ 167,6 milhões. Em qualquer caso, abaixo da inflação. Uma observação técnica: as parcelas da venda têm correção contratual própria, pelo IPCA-E, a partir da assinatura. Nossa conta é outra, com o IPCA cheio, e serve só para trazer o valor da compra de 2012 até a data da venda.
Enquanto isso, em Cuiabá
O substituto do VLT na capital mato-grossense é um corredor de ônibus, o BRT. Segundo a Secretaria de Infraestrutura de Mato Grosso, a obra tinha 49,13% de execução contratual em junho de 2026, com R$ 206 milhões já desembolsados. É o segundo contrato: o primeiro, de R$ 468 milhões, assinado em 2022 com entrega prevista para outubro de 2023, foi rescindido com menos de 20% concluído, segundo a imprensa local.

Foi lucro?
Pela inflação, não. Mato Grosso ficou sem o trem e, corrigida a compra, sem o lucro: a venda de R$ 793,7 milhões ficou uns R$ 200 milhões abaixo do valor de 2012 atualizado. Isso não diz que vender foi um erro. Os trens estavam parados havia quase dez anos e hoje transportam gente em Salvador. Mas o número mostra que a "venda com lucro" só existe em valor nominal.
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Fontes
- TCU, nota sobre o acordo de compra e venda dos trens entre Bahia e Mato Grosso, 03/07/2024
- TCU, Acórdão 119/2019-Plenário (obra do VLT paralisada), nota de 12/02/2019
- IBGE/SIDRA, IPCA mensal, tabela 1737 (07/2012 a 07/2024)
- A Tarde, valor de compra dos trens (R$ 497 milhões), 28/02/2024
- Primeira Página, assinatura do acordo MT–BA, 03/07/2024
- Jornal Grande Bahia, ampliação do VLT de Salvador e 80 mil passageiros, 02/09/2026
- VGN, BRT entre Cuiabá e Várzea Grande com 49% de execução, 14/06/2026
Imagens
- Um dos trens comprados para Cuiabá, na Estação Calçada, em Salvador (BA) · Amancio do Compromisso / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
- Governo do Estado de Mato Grosso / Wikimedia Commons, CC BY 4.0
- Amancio do Compromisso / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
- Lucasgrrss / Wikimedia Commons, CC0


