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PISão Raimundo Nonato (PI)

Serra da Capivara: 50 mil anos de ocupação seguem em disputa; parque teve 49 mil visitas em 2025, diz o ICMBio

A datação de 50 mil anos de Pedra Furada segue em disputa; as idades de pintura mais citadas são de cerca de 10 mil anos. O parque teve 49.215 visitas em 2025, sem ingresso. O que fica para a cidade?

7 min de leitura24 fontes

49.215visitas ao Parque Nacional da Serra da Capivara em 2025, segundo o ICMBio (via imprensa local)

Paredões de arenito em tons de laranja e cinza sobre um vale de vegetação verde, com nuvens escuras no céu
Parque Nacional da Serra da Capivara (PI) · Leonardo Ramos / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

São Raimundo Nonato, no sudeste do Piauí, tinha 38.934 habitantes no Censo 2022 do IBGE e é a sede do Parque Nacional da Serra da Capivara, Patrimônio Mundial da Unesco desde 1991. Em 2025, o parque recebeu 49.215 visitas, segundo o ICMBio, conforme noticiou a imprensa local. A fama da Capivara repousa na ideia de que havia gente ali há 50 mil anos ou mais. A pergunta deste texto tem duas partes: o que a Serra da Capivara realmente prova sobre a presença humana nas Américas, e o que ela deixa para São Raimundo Nonato? Trechos de documentos e artigos em inglês aparecem traduzidos por nós.

O que o parque protege

O parque foi criado pelo Decreto 83.548, de 5 de junho de 1979, "com a área de aproximadamente 100.000 ha". Hoje a ficha do ICMBio traz 100.764,19 hectares, enquanto a Unesco lista 130.600 ha e o Iphan fala em cerca de 130 mil; as páginas consultadas não explicam a diferença. A Unesco inscreveu o bem em 1991, pelo critério (iii), o de "testemunho excepcional" de uma das populações mais antigas da América do Sul, e o Iphan o tombou em 1993. A sede é São Raimundo Nonato, mas, segundo o Iphan, a área abrange parte de quatro municípios: São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias.

Quantos sítios arqueológicos existem? Depende de quem conta:

Fonte O que conta Número
ICMBio, página de visitação (sem data) sítios cadastrados / abertos à visita mais de 1.000 / 204
Iphan, tombamento de 1993 sítios na área protegida cerca de 400
Unesco, dossiê 606 sítios dentro do parque mais de 300

O vídeo chamou a Capivara de "a maior concentração de arte pré-histórica das Américas". O superlativo é das instituições e vale para sítios, não para pinturas: o ICMBio escreve que ali está "a maior concentração de sítios arqueológicos atualmente conhecida nas Américas", e a Unesco, que o parque preserva o maior conjunto de sítios e "os mais antigos exemplos de arte rupestre das Américas".

Painel de pinturas rupestres em vermelho e ocre sobre rocha clara, com figuras de aves, animais e pessoas
Pinturas rupestres em um dos sítios do Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), em 22/07/2013Artur Warchavchik / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

A disputa dos 50 mil anos

Os 50 mil anos não vêm das pinturas, e sim das camadas de terra do abrigo do Boqueirão da Pedra Furada, com carvão de supostas fogueiras e quartzo lascado. Em 1986, Niède Guidon e Delibrias publicaram na Nature o artigo "Carbon-14 dates point to man in the Americas 32,000 years ago". Em 2003, um estudo com Guidon e Fabio Parenti entre os autores, na Quaternary Science Reviews, usou novo tratamento do carvão e achou, na maioria das amostras da camada mais baixa, idades acima de 50 mil anos. A Unesco diz que o sítio "sugere" ocupação humana "há até 50 mil anos".

A crítica veio antes: em 1994, os arqueólogos David Meltzer, James Adovasio e Tom Dillehay, que visitaram o sítio a convite da equipe, publicaram na Antiquity uma avaliação crítica, que discute se fogueiras e lascas seriam obra humana ou de processos naturais; a equipe de Guidon respondeu na mesma revista, em 1996. Em 2014, Boëda e colegas apresentaram novas datas, por radiocarbono e luminescência, e concluíram por ocupação de "mais de 20 mil anos"; o artigo lembra que as alegações anteriores "não eram universalmente aceitas". Em 2022, Agnolín e Agnolín compararam os sítios a depósitos de pedras lascadas por macacos-prego e escreveram que os sítios antigos "podem não ser de origem humana". Fabio Parenti, da UFPR, que escavou Pedra Furada em 1987 e 1988, rejeitou o estudo ao Correio Braziliense: segundo ele, os autores trabalharam só com publicações e ignoraram as fogueiras.

Paredão de arenito rosado e alaranjado com árvores à esquerda e uma passarela de madeira ao pé da rocha
O Boqueirão da Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), em 07/08/2012Otávio Nogueira / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Fora do Piauí, o quadro também mudou. A tese clássica punha a chegada ao continente na cultura Clovis, por volta de 11,2 mil anos em idade de radiocarbono, algo perto de 13 mil anos de calendário (conversão aproximada nossa). Em 2021, pegadas humanas em White Sands (Novo México) foram datadas em 23 mil a 21 mil anos, na Science; em 2023, datações independentes reforçaram essas idades, antes contestadas. Por isso, 13 mil anos deixou de ser um teto incontestado. Já 30, 40 ou 50 mil anos em Pedra Furada é hipótese em disputa, não fato, e novas descobertas podem mexer nesse quadro.

As pinturas têm outra idade

A legenda original do vídeo dizia que as pinturas "datam de mais de 40 mil anos". A afirmação não é inventada: uma frase do dossiê da Unesco fala em sítios com pinturas "de 50 mil a 30 mil anos", e outra, em pinturas "com mais de 25 mil anos". Mas a mesma página registra que o sítio mais antigo com arte rupestre preservada tem 10.530 anos antes do presente.

Guidon, Martin e Pessis (2013) descrevem fragmentos de parede pintada soterrados em camadas do Boqueirão da Pedra Furada datadas em 29.860 ± 650 anos, e pinturas do Baixão do Perna ligadas a sedimentos de 10 mil a 7 mil anos. A calcita sobre pinturas da Toca da Bastiana deu de 17 mil a 48 mil anos, mas os próprios autores ressalvam problemas de coleta e de contaminação e dizem que o trabalho seguia em andamento. Fontugne e colegas (2013) acharam menos de 12 mil anos na calcita que cobre pinturas da Toca da Gameleirinha, o que sugere que elas "poderiam ser mais recentes" do que se propôs. Rosina e colegas (2022) obtiveram idades máximas, por urânio-tório, e propõem que figuras geométricas sejam do início do Holoceno. As idades que aparecem em mais de uma fonte são da ordem de 10 mil anos ou menos.

O que o parque rende

Segundo a rádio Alvorada FM, que cita dados do ICMBio, o parque teve 49.215 visitas em 2025, contra 39.614 em 2024, alta de 24% (cálculo nosso). A rádio chamou a marca de a maior desde o início do monitoramento, em 2000, mesmo com a suspensão dos voos para o aeroporto da cidade. Em 2023, segundo a Agência Brasil, foram "mais de 36 mil" visitantes presenciais. São números só de imprensa: não achamos a série no ICMBio.

Visitas ao Parque Nacional da Serra da Capivara

  1. 2023mais de 36 mil
  2. 202439.614
  3. 202549.215

Fonte: ICMBio, segundo Agência Brasil (2023) e Alvorada FM (2024 e 2025)

Fachada de prédio rosado com letras de bronze que formam o nome Museu do Homem Americano
Fachada do Museu do Homem Americano, mantido pela Fumdham, em São Raimundo Nonato (PI), em 14/10/2010Vagner Carvalheiro / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Não há ingresso: pela Portaria 196/2018, segundo o ICMBio, "não há cobrança de ingresso de acesso ao Parque". A condução é obrigatória e "paga à parte", com até 8 pessoas por condutor, e percorrer os circuitos abertos leva cerca de seis dias. Não encontramos, nas fontes consultadas, arrecadação pública específica do turismo na cidade.

O PIB dos Municípios do IBGE não tem um setor "turismo". O PIB de São Raimundo Nonato foi de R$ 761,8 milhões em 2023, ou R$ 19,6 mil por habitante (cálculo nosso, com a população do Censo 2022). No Piauí, foram R$ 24,7 mil (R$ 80,9 bilhões ÷ 3.271.199 habitantes, cálculo nosso). O detalhamento por setor mais recente é de 2021:

Valor adicionado bruto de São Raimundo Nonato por setor, 2021 (R$ milhões, valores da época)

  1. Serviços (exceto setor público)R$ 264,1 mi (51,9%)
  2. Administração, educação e saúde públicasR$ 176,4 mi (34,7%)
  3. IndústriaR$ 44,9 mi (8,8%)
  4. AgropecuáriaR$ 23,3 mi (4,6%)

Fonte: IBGE, PIB dos Municípios (SIDRA 5938)

O primeiro grupo reúne comércio, transporte, hospedagem e outros serviços; o turismo é só parte dele. No Cempre, o cadastro de empresas do IBGE, "alojamento e alimentação" tinha 175 pessoas ocupadas em 2024, 2,8% das 6.198 do município (cálculo nosso), em 75 unidades locais, 21 de hospedagem. Em 2022 eram 120, ou 2,2% de 5.550. O retrato é parcial: só o setor formal, e esses negócios também atendem moradores.

Quem paga a preservação

Segundo a Unesco, o parque é administrado em conjunto pelo ICMBio e pela Fumdham, a Fundação Museu do Homem Americano, com apoio do Iphan. O dossiê diz que o fluxo contínuo de recursos e de cooperação internacional é essencial ao plano de manejo e cita o ecoturismo arqueológico como um dos motores econômicos da região. Não achamos, nas fontes públicas consultadas, o orçamento anual do parque.

Um valor aparece: em dezembro de 2018, o BNDES apoiou a Fumdham com R$ 13,7 milhões não reembolsáveis, 68% do custo do Museu da Natureza, em Coronel José Dias, segundo o Jornal Grande Bahia. É investimento em obra, em valores da época e dado só de imprensa, não o custo anual de manter o parque.

A resposta

O que a Serra da Capivara prova? Um conjunto grande de sítios com pinturas e ocupação humana por milhares de anos, com idades da ordem de 10 mil anos que aparecem em várias fontes, e uma disputa científica aberta sobre datas de 30 a 50 mil anos, que não é fato estabelecido. O que deixa para São Raimundo Nonato? Segundo a imprensa, 49.215 visitas em 2025, sem ingresso, e 175 pessoas ocupadas em hospedagem e alimentação em 2024: um patrimônio mundial com uma economia local pequena ao redor. O vídeo citava ainda o Delta do Parnaíba, Barra Grande e Sete Cidades; aqui ficamos só com a Capivara.

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Fontes

  1. IBGE, Censo 2022, população e área de São Raimundo Nonato, SIDRA tabela 4714
  2. IBGE, Censo 2022, população do Piauí, SIDRA tabela 9514
  3. IBGE, PIB dos Municípios 2021 e 2023, SIDRA tabela 5938
  4. IBGE, Cempre, unidades locais e pessoal ocupado por seção CNAE, 2022 a 2024, SIDRA tabela 9528
  5. Decreto 83.548, de 5/6/1979, criação do Parque Nacional da Serra da Capivara
  6. ICMBio, ficha do Parna da Serra da Capivara
  7. ICMBio, Informações sobre visitação do Parna da Serra da Capivara
  8. Unesco, Centro do Patrimônio Mundial, Serra da Capivara National Park (dossiê 606)
  9. Iphan, Bens arqueológicos tombados e reconhecidos como Patrimônio Mundial
  10. Guidon e Delibrias, Nature 321, 1986
  11. Meltzer, Adovasio e Dillehay, Antiquity 68, 1994
  12. Guidon, Pessis, Parenti, Fontugne e Guérin, Antiquity 70, 1996 (resposta a Meltzer et al.)
  13. Santos et al., Quaternary Science Reviews 22, 2003
  14. Boëda et al., Antiquity 88, 2014
  15. Agnolín e Agnolín, The Holocene, 2022
  16. Correio Braziliense, 2023, com a resposta do arqueólogo Fabio Parenti (UFPR)
  17. Guidon, Martin e Pessis, Palethnologie 5, 2013, cronologia das pinturas
  18. Fontugne et al., Radiocarbon 55, 2013, calcita sobre pinturas
  19. Rosina et al., Rock Art Research 39, 2022, datação por urânio-tório
  20. Bennett et al., Science 373, 2021, pegadas de White Sands
  21. Pigati et al., Science 382, 2023, pegadas de White Sands
  22. Alvorada FM, visitas ao parque em 2024 e 2025 (cita o ICMBio; fonte secundária)
  23. Agência Brasil, 03/02/2024, visitas em 2023 (fonte secundária)
  24. Jornal Grande Bahia, 19/12/2018, apoio do BNDES ao Museu da Natureza (fonte secundária)

Imagens

  • Parque Nacional da Serra da Capivara (PI) · Leonardo Ramos / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
  • Artur Warchavchik / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0
  • Otávio Nogueira / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
  • Vagner Carvalheiro / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
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