São Luís nasceu de um forte francês em 1612; o patrimônio que a Unesco protege é português
São Luís (MA), com 1.037.775 habitantes, nasceu de um forte francês de 1612. O que a França deixou, o que é português no Centro Histórico e como a cidade lida com o custo de mantê-lo.
66,65 haárea do Centro Histórico inscrita pela Unesco como Patrimônio Mundial em 1997

São Luís, capital do Maranhão, tinha 1.037.775 habitantes no Censo 2022 do IBGE, 15,3% da população do estado (cálculo nosso). O Centro Histórico foi tombado pelo Iphan em 1974 e inscrito pela Unesco na Lista do Patrimônio Mundial em dezembro de 1997, numa área de 66,65 hectares. A própria Unesco descreve a cidade como fundada pelos franceses. A pergunta deste texto: o que a França deixou em São Luís e o que a cidade faz hoje com esse patrimônio?
Um forte francês na ilha
Segundo o historiador Alírio Cardoso (Revista Brasileira de História, 2011), a expedição da França Equinocial saiu de Cancale, na Bretanha, em março de 1612, com três navios e cerca de 500 homens, e chegou ao Maranhão em julho. Os chefes eram Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, e François de Razilly, tenentes do rei Luís XIII a serviço da regente Maria de Médici, segundo o ICOMOS, órgão consultivo da Unesco. Os dois ergueram um forte e o chamaram de Saint-Louis, em homenagem ao rei, diz o mesmo documento.
Vieram também frades capuchinhos. Claude d'Abbeville publicou em Paris, em 1614, a História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão; Yves d'Évreux lançou uma continuação em 1615. Segundo Fernandes (2012), estão entre os primeiros escritos sobre a terra, de olhar missionário e europeu.

1614 e 1615: batalha, trégua e entrega do forte
A ocupação durou pouco mais de três anos, de julho de 1612 a novembro de 1615. Em 19/11/1614, as forças de Jerônimo de Albuquerque enfrentaram os franceses na batalha de Guaxenduba, que a Revista da ASBRAP nº 20 registra como vitória luso-brasileira, e em 27/11/1614 foi firmada uma trégua, datas que a revista tira das Efemérides Brasileiras do Barão do Rio Branco. O fim veio no ano seguinte: pela historiadora Maria de Lourdes Lauande Lacroix, resumida na mesma revista, o general Alexandre de Moura recebeu a rendição de La Touche em 2 de novembro de 1615.
Cardoso afirma que a expulsão foi feita por soldados luso-pernambucanos, com extensa ajuda indígena, e que a conquista fazia parte de um projeto hispano-luso de proteção da fronteira (Portugal e Espanha tinham a mesma coroa), não só de uma resposta aos franceses.
Quem fundou a cidade, e a "única capital"
Diz-se muito que São Luís é "a única capital brasileira fundada por franceses". A frase tem ressalvas. A primeira é historiográfica. A tese da fundação francesa é a mais difundida hoje; a Revista da ASBRAP registra que a cidade celebrou em 1912 os 300 anos dessa fundação. Ana Luiza Almeida Ferro, na Revista do TRF1 (2023), sustenta que a cerimônia de posse de 8 de setembro de 1612 marca a fundação e chama a versão da fundação portuguesa de "mito de origem". Lacroix defende o contrário: os franceses fundaram um forte, não uma cidade. Para ela, a cidade começou com o regimento de 9 de janeiro de 1616, em que Alexandre de Moura mandou Jerônimo de Albuquerque fazê-la "bem arruada", pela traça do engenheiro-mor Francisco Frias de Mesquita (resumo na Revista da ASBRAP). A Unesco adota a primeira leitura.
A segunda é de comparação. Não achamos levantamento oficial que compare a origem das capitais; a frase circula na imprensa e em material de turismo. O caso mais próximo é o Rio de Janeiro: a França Antártica se instalou na baía de Guanabara em 1555, mas a cidade foi fundada em 1º de março de 1565 por Estácio de Sá, segundo Elysio Belchior (História, 2008), que trata a vila francesa de Henriville como efêmera. No máximo, a frase vale como "a capital estadual cuja fundação costuma ser atribuída a franceses", para quem aceita essa leitura, sem que tenhamos comparado todas as capitais.
O que ficou da França
Em grande parte, ficaram o nome e a memória. Segundo Lacroix, o nome São Luís passou do forte para a cidade nascente. O ICOMOS registra, em 1997, que o Palácio dos Leões, sede do governo estadual, ocupa o sítio do forte original. Diante da prefeitura, uma foto de 2012 mostra um busto de La Touche, com placa de homenagem da cidade.


O que a Unesco protege, porém, é a cidade portuguesa. A ficha do sítio diz que a malha de ruas segue o plano de 1615, traçado pelo engenheiro-chefe de Portugal no Brasil depois da conquista do forte francês. A inscrição se apoia nos critérios (iii), "testemunho excepcional da civilização colonial portuguesa", (iv) e (v) (tradução nossa).
Algodão, estagnação e a conta de manter
A riqueza que encheu a cidade de sobrados veio depois. O ICOMOS cita a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão, criada em 1755, e a exportação de arroz e algodão. O Iphan afirma que, na primeira metade do século XIX, São Luís era considerada a quarta cidade mais importante do Império, ao lado de Rio, Recife e Salvador. O azulejo de fachada virou uma das marcas locais.
O conjunto sobreviveu, diz o dossiê de candidatura do Brasil (1996), por uma ironia: a crise do Maranhão, das décadas de 1920 a 1970, deixou o estado sem verba para a "renovação urbana" que trocaria casarões por prédios altos. O mesmo dossiê chama o centro de "o maior conjunto urbano e arquitetônico colonial da América Latina" (tradução nossa), com mais de 4 mil edifícios. É um superlativo do governo na candidatura: o texto da Unesco não o repete, e não achamos levantamento independente que o confirme, nem para o "maior acervo de azulejos", frase muito repetida. O Iphan, em página de 2021, fala em "cerca de quatro mil imóveis tombados".
Manter tudo isso custa. Segundo o ICOMOS, um programa de preservação executado em 1987-89 teve investimento equivalente a US$ 25 milhões, valor da época. Em abril de 2026, segundo O Imparcial, que noticia o anúncio do Governo Federal, do Iphan e do Governo do Maranhão, foram previstos R$ 63,9 milhões do Novo PAC para dez edificações, média de R$ 6,4 milhões por prédio (cálculo nosso). É previsão para dez imóveis, não o custo total da preservação.

O estado dos imóveis preocupa. A Unesco classifica o centro como "extremamente vulnerável ao abandono e à negligência" (tradução nossa) e cita o êxodo de moradores. O Corpo de Bombeiros do Maranhão (Defesa Civil estadual) examinou 261 imóveis do Centro Histórico em 2023, e 75 mostraram alguma situação de risco; em 2024, foram 389 vistoriados, 70 deles com "grave nível de precariedade". A vistoria de 2024 contemplou casarões já mapeados como precários, então os números não são amostra do conjunto e não dão percentual. A maior parte dos imóveis é particular, segundo o órgão.
Imóveis do Centro Histórico vistoriados pelo Corpo de Bombeiros do Maranhão
Fonte: CBMMA, vistorias de 2023 e 2024 (critérios de risco diferentes em cada ano)
A Justiça também entra. Em 26/08/2026, o MPF informou que a Justiça Federal condenou o Estado do Maranhão a recuperar um casarão tombado na Rua Portugal, que pertence ao poder público: 90 dias para obras emergenciais, 180 para um projeto de recuperação integral com anuência do Iphan e multa de R$ 1 mil por dia em caso de descumprimento. O estado argumentou que agia pelo programa Adote um Casarão, cuja licitação de 2019 não avançou, e que a ocupação irregular atrapalhou as obras. O juiz rejeitou os argumentos, segundo o MPF.
Não achamos contagem pública de visitantes do Centro Histórico. O indicador mais próximo, segundo o Obstur-MA (via Correio da Manhã), é de 807.582 desembarques aéreos na capital em 2024, que inclui quem viaja a trabalho e não mede visitas ao centro.
A resposta
A França deixou o nome, o ponto de partida (um forte, no sítio do atual Palácio dos Leões), crônicas de capuchinhos e uma memória que a cidade guarda. O conjunto que a Unesco protege é o do plano português de 1615 e dos sobrados do tempo do algodão, e a cidade lida com a conta de mantê-lo: R$ 63,9 milhões previstos para dez prédios em 2026, 70 casarões em precariedade grave apontados pelo Corpo de Bombeiros em 2024 e uma sentença de agosto de 2026 sobre um casarão do poder público. Quanto à frase "única capital fundada pelos franceses", ela depende do recorte e de uma disputa entre historiadores que continua aberta.
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Fontes
- IBGE, SIDRA tabela 4714, população residente, Censo 2022, São Luís (2111300) e Maranhão
- Unesco, Historic Centre of São Luís (ficha nº 821: inscrição em 1997, critérios iii, iv e v, 66,65 ha, valor universal excepcional)
- ICOMOS, avaliação do Centro Histórico de São Luís para a Unesco, set. 1997 (reproduz o dossiê de candidatura do Brasil, de 1996)
- Iphan, Superintendência do Maranhão, Patrimônio Material (tombamento em 1974; cerca de 4 mil imóveis tombados), publicado em 10/09/2021
- Alírio Cardoso, A conquista do Maranhão e as disputas atlânticas na geopolítica da União Ibérica (1596-1626), Revista Brasileira de História, v. 31, n. 61, 2011
- José Guilherme dos Santos Fernandes, Crônicas da França Equinocial, Gragoatá, n. 33, 2012
- Ana Luiza Almeida Ferro, Considerações sobre a fundação de São Luís: o feito francês e o mito luso, Revista do TRF1, v. 35, n. 2, 2023
- Paulo Fernando de Albuquerque Maranhão, Jerônimo de Albuquerque Maranhão e a fundação da cidade de São Luís (resume a obra de Maria de Lourdes Lauande Lacroix), Revista da ASBRAP, n. 20
- Elysio Belchior, Estácio de Sá e a fundação do Rio de Janeiro, História (São Paulo), v. 27, n. 1, 2008
- Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão, vistoria em prédios do Centro Histórico, 18/03/2024
- Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão, vistoria de quase 400 casarões, 09/12/2024
- MPF no Maranhão, Justiça condena o Estado do Maranhão a recuperar casarão histórico no Centro de São Luís, 26/08/2026
- Observatório do Turismo do Maranhão (Obstur-MA), Boletim Trimestral 2024, noticiado pelo Correio da Manhã, 22/01/2025
- O Imparcial, Governo investe R$ 63,9 mi na restauração do Centro Histórico de São Luís, 18/04/2026
Imagens
- Fachada azulejada no Centro Histórico de São Luís (MA) · Prburley / Wikimedia Commons, CC BY 4.0
- Claude d'Abbeville (exemplar da Biblioteca Nacional da França, via Gallica) / Wikimedia Commons, domínio público
- Ridiculopathy / Wikimedia Commons, CC0
- Marcus Soares / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0
- Lyssuel Calvet / Wikimedia Commons, CC BY 2.0


