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Refinaria Premium I: Petrobras baixou R$ 2,1 bi em Bacabeira (MA). O que há hoje no terreno?

Bacabeira (MA) tem 16.966 habitantes. Ao abandonar a Refinaria Premium I, em 2015, a Petrobras baixou R$ 2,1 bilhões do balanço. O que foi feito no terreno e o que há lá hoje?

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R$ 2,1 bibaixados pela Petrobras com a Refinaria Premium I (3º tri de 2014, valores da época)

Imagem de satélite de Bacabeira (MA) com uma grande área plana e clara, de contorno retangular, cercada por mata verde, estradas e pequenos povoados
Área terraplenada em Bacabeira (MA), em 18/08/2026 · NASA GIBS / HLS, domínio público (contém dados modificados Copernicus Sentinel 2026)

Bacabeira, no Maranhão, tinha 16.966 habitantes no Censo 2022 do IBGE. Na cidade, a Petrobras preparou o terreno da Refinaria Premium I, projetada para processar 600 mil barris de petróleo por dia. Em janeiro de 2015, a empresa decidiu abandonar o projeto e, segundo documento arquivado na SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, baixou R$ 2,111 bilhões (valores da época) que estavam registrados no ativo. Quanto disso foi gasto no terreno? Por que o projeto parou? E o que existe lá hoje?

Duas fases de 300 mil barris por dia

A Premium I foi pensada para o Maranhão; a Premium II, para o Ceará. Segundo os relatórios anuais da Petrobras à SEC (formulário 20-F), a refinaria maranhense seria construída em duas fases de 300 mil barris por dia cada, ou 600 mil no total, para processar petróleo pesado e maximizar a produção de diesel de baixo teor de enxofre. A Premium II teria 300 mil. O relatório de 2013 previa abrir as licitações de construção em 2014.

Os estudos começaram em 2008, e a previsão era de funcionamento pleno no fim de 2016, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU). Em 2012, o tribunal anotou que o projeto voltara à primeira fase de avaliação e "não será implantado antes de 2017". Em maio de 2014, a Petrobras previa o primeiro trem em operação em 2018.

O que foi feito no terreno

O contrato de terraplenagem, drenagem e acessos foi assinado em 18/08/2010 com o Consórcio Galvão-Serveng-Fidens, e as obras começaram em 26/08/2010, segundo o TCU. Em abril de 2012, o tribunal registrou cerca de 42% do contrato executado, contra 56% previstos no cronograma.

Segundo a Petrobras, em respostas ao jornal O Globo em maio de 2014, a terraplenagem terminou em dezembro de 2012, com cerca de 80% dos serviços contratados feitos; o restante seria executado após a otimização do projeto básico. O contrato foi encerrado em abril de 2013, depois das obras especiais, como as pontes de acesso. A empresa disse ter pago R$ 583 milhões pelos serviços de terraplenagem, drenagem, acessos e obras especiais efetivamente realizados. Na mesma resposta, disse que os pacotes de contratação da refinaria em si ainda estavam "em ajustes finais" para licitação.

Imagem de satélite com uma grande área plana e clara ao centro, cercada por mata, estradas e povoados; à direita, a cidade de Rosário na curva de um rio
A área terraplenada (ao centro) e os arredores, em 18/08/2026; à direita, a sede de Rosário, na curva do Itapecuru. A posição coincide com a do polígono da ZPE descrito pelo governo do MaranhãoNASA GIBS / HLS, domínio público (contém dados modificados Copernicus Sentinel 2026)

A auditoria do TCU de 2012 apontou dois achados: pagamento por serviço não executado (prejuízo potencial estimado em R$ 1,5 milhão, classificado como grave, com recomendação de continuidade da obra) e implantação sem estudo de viabilidade técnica e econômico-financeira. Em 5/9/2012, o Plenário mandou a Petrobras apresentar um estudo sobre a conveniência de continuar a terraplenagem. São apontamentos de auditoria, sujeitos à defesa: em 2014, a Petrobras disse discordar de que não houvesse projeto adequado e afirmou que os aditivos ao contrato (13, segundo a pergunta do jornal) não aumentaram o custo da obra.

O que o balanço registrou

Em 22/01/2015, a Petrobras decidiu encerrar os projetos das refinarias Premium I e II. Na nota do resultado do terceiro trimestre de 2014, arquivada na SEC em 28/01/2015 e ainda sem revisão dos auditores, a empresa disse (em tradução nossa) que decidiu à vista dos resultados econômicos obtidos até então, das taxas projetadas de crescimento dos mercados de derivados no Brasil e no exterior e da falta de um parceiro econômico, previsto no Plano de Negócios e Gestão 2014-2018. O documento registra perda de R$ 2.707 milhões: R$ 2.111 milhões da Premium I e R$ 596 milhões da Premium II.

Premium I: terraplenagem paga e custos baixados do balanço (R$ milhões, valores da época)

  1. Terraplenagem pagaR$ 583 mi
  2. Baixa da Premium IR$ 2.111 mi

Fonte: Petrobras (Fatos e Dados, 05/2014; Form 6-K, 01/2015)

Os dois valores são da Petrobras, de datas diferentes. A terraplenagem paga equivale a cerca de 28% do valor baixado (cálculo nosso). Sobre a diferença, de R$ 1,53 bilhão (cálculo nosso), a empresa não abriu valores. Em 2014, ao ser questionada sobre os R$ 1,5 bilhão citados em 2013 pelo então ministro de Minas e Energia, listou o que os custos englobavam além da terraplenagem: canais perimetrais, canteiros, pontes de acesso, licenças de tecnologia, projetos básicos, estudos ambientais e um convênio com a Prefeitura de Bacabeira, entre outros itens.

Nas demonstrações auditadas de 2014, de abril de 2015, a baixa das duas refinarias aparece como R$ 2.825 milhões, sem separar por projeto; no 20-F, em dólares, US$ 1.236 milhões. É o mesmo evento, em momentos e moedas diferentes.

Outros números circularam, mas não os usamos, por falta de documento oficial. O investimento total previsto da Premium I aparece em reportagens como US$ 20 bilhões, e o senador autor de uma proposta de 2015 citou R$ 40 bilhões, segundo a Agência Senado. A própria Petrobras disse, em 2014, que o custo total só poderia ser medido "após a conclusão da etapa de consulta ao mercado". Os R$ 3,8 bilhões atribuídos a um relatório do TCU foram noticiados pelo Valor em setembro de 2015, quando o tribunal disse não poder confirmá-los.

Em março de 2015, a diretora-geral da ANP disse à Câmara: "Nem Premium I nem Premium II jamais foram submetidas à ANP. Nós nunca recebemos uma solicitação de autorização de construção". Em setembro, o Senado aprovou uma proposta (PFS 1/2015) para pedir ao TCU que avalie a legalidade da suspensão e se houve dano ao erário; não localizamos a decisão final.

Uma cidade de 17 mil habitantes

Bacabeira tinha 14.925 habitantes no Censo 2010 e 16.966 no Censo 2022, segundo o IBGE: alta de 13,7% (cálculo nosso). O PIB do município foi de R$ 466,2 milhões em 2023.

População de Bacabeira (MA)

  1. 201014.925
  2. 202216.966

Fonte: IBGE, Censos Demográficos 2010 e 2022

Pela nossa conta, os R$ 2,1 bilhões baixados equivalem a 4,5 vezes o PIB de Bacabeira em 2023. É só uma ordem de grandeza: compara um valor acumulado em vários anos, em reais da época, com a produção de um único ano. E o PIB mede o que se produz no município, não o caixa da prefeitura.

Rio largo e de águas barrentas entre margens de mata, sob céu azul com nuvens
O Rio Itapecuru, visto da rodovia MA-402, em Rosário (MA), município vizinho de Bacabeira, em 21/06/2021; imagem ilustrativa da regiãoEsquilo / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

O terreno hoje

O Decreto 12.131, de 7/8/2024, criou a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Bacabeira, com 2.098,83 hectares nos limites com Rosário e Santa Rita. A ZPE só entra em funcionamento depois do alfandegamento da área pela Receita Federal.

Na apresentação que o governo do Maranhão fez da ZPE em julho de 2024, o terreno aparece com o governo estadual como proprietário e "70% terraplenado", ou cerca de 1.470 hectares (cálculo nosso). Entre os aspectos ambientais, o documento cita a Licença de Instalação da Refinaria Premium I, o que indica que o terreno é o mesmo ou se sobrepõe ao da refinaria. Não localizamos documento público que detalhe quando e como a área voltou ao estado.

Locomotiva alaranjada da Estrada de Ferro Carajás puxando vagões carregados de minério, atrás de capim alto e sob céu nublado
Trem de minério da Estrada de Ferro Carajás em Bacabeira (MA), em foto publicada com data de 2009; a apresentação da ZPE destaca a ferrovia entre as ligações logísticas. Imagem ilustrativaMarcelo Castro / Wikimedia Commons, CC BY 3.0

Em outubro de 2024, o conselho das ZPEs (CZPE) aprovou, pela Resolução 79/2024, o projeto de uma refinaria modular da Oil Group Maranhão. Em 25/08/2026, aprovou mais três projetos em Bacabeira, segundo o MDIC: uma biorrefinaria da 4Wood Biotech (R$ 2,7 bilhões), hidrogênio verde da H2X (R$ 2 bilhões) e ferro-esponja verde da Hydeas (R$ 18,5 bilhões). Somam R$ 23,2 bilhões (cálculo nosso), com 10 mil empregos previstos na implantação e 550 na operação. São previsões das empresas e do governo, e não dinheiro aplicado. Na página do MDIC atualizada em 22/09/2026, Bacabeira consta como "ZPE em instalação"; uma ZPE só é ativa quando as obras estão atestadas e a área, alfandegada.

A resposta

O que foi feito no terreno? Terraplenagem, drenagem, acessos e obras de apoio, com R$ 583 milhões pagos pela terraplenagem, segundo a Petrobras. Quanto ficou registrado? R$ 2,111 bilhões da Premium I, baixados no 3º trimestre de 2014, em valores da época. Por que parou? Pela razão que a empresa deu em seus documentos: resultados econômicos, demanda projetada e falta de um parceiro para a fase de construção. E hoje? Segundo o governo do Maranhão, o terreno é do estado e está 70% terraplenado; a ZPE ainda está em instalação, e os bilhões previstos são projeções.

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Fontes

  1. Petrobras, Form 6-K (resultado do 3º trimestre de 2014, sem revisão dos auditores), nota sobre as refinarias Premium I e II, arquivado na SEC em 28/01/2015
  2. Petrobras, Form 6-K (demonstrações contábeis de 2014 em reais), nota 12.4, abril de 2015
  3. Petrobras, relatório 20-F de 2014 (em dólares), nota 12.4
  4. Petrobras, relatórios 20-F de 2012 e de 2013 (capacidade e fases da Premium I)
  5. Petrobras, Fatos e Dados, "Refinaria Premium I: respostas ao jornal O Globo", 11/05/2014 (versão arquivada)
  6. TCU, relatório de fiscalização 460/2012 (Fiscobras 2012, TC 012.653/2012-8, Acórdão 2.407/2012-Plenário), reproduzido pela Comissão Mista de Orçamento
  7. Agência Câmara, audiência com a diretora-geral da ANP, 11/03/2015
  8. Agência Senado, proposta de fiscalização sobre a Premium I (PFS 1/2015), 15/09/2015
  9. Diário do Nordeste, "Refinarias Premium I e II teriam gerado prejuízo de R$ 3,8 bilhões" (cita o Valor), 28/09/2015
  10. IBGE, Censo Demográfico 2022, população de Bacabeira, SIDRA tabela 4714
  11. IBGE, Censo Demográfico 2010, população de Bacabeira, SIDRA tabela 202
  12. IBGE, PIB dos Municípios 2023, SIDRA tabela 5938
  13. Presidência da República, Decreto 12.131, de 7/8/2024 (ZPE de Bacabeira)
  14. Governo do Maranhão (SEDEPE) e ABRAZPE, apresentação da ZPE de Bacabeira, 12/07/2024
  15. MDIC, ZPE criadas e projetos aprovados (atualizado em 22/09/2026)
  16. MDIC, CZPE aprova R$ 206 bi de investimentos no Ceará, Maranhão e Piauí, 26/08/2026

Imagens

  • Área terraplenada em Bacabeira (MA), em 18/08/2026 · NASA GIBS / HLS, domínio público (contém dados modificados Copernicus Sentinel 2026)
  • NASA GIBS / HLS, domínio público (contém dados modificados Copernicus Sentinel 2026)
  • Esquilo / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0
  • Marcelo Castro / Wikimedia Commons, CC BY 3.0
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